Art-Therapy LRS GmbH
Luciana Reis-Savioz

Creativity at the Service of Personal Development

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Blog destinado à oferecer informações sobre a arteterapia na Suíça 

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A Arteterapia

Publié le 23 mai 2018 à 4:20 Comments commentaires (3)

1. O nascimento da arte ...

A relação ser humano e arte data de mais de 50.000 anos. Antes da palavra nossa humanidade era exposta à muitos sons, imagens, luminosidade, claro/escuro, formas, cores, sensações, cheiros, texturas etc. Nesse contexto nasce a arte rupestre que é a expressão da relação do ser humano consigo e com o entorno. Imaginemos como essa expressão teria começado : talvez um primeiro caçador, deixou uma mensagem para um outro, usando algum pigmento improvisado para informar alguma coisa. Esse sinal talvez tenha servido de proteção para que o outro de não se perca. Num determinado momento, o ato de assinalar coisas acaba se tornando mais significativo. (Maciel & Carneiro, 2012)

Um outro dia, ele traça algo na caverna, algo que que no momento esteja distante e que seja profundamente significativo : seja sobre um evento comunitário, uma busca de relação com a divindade, um animal que ele teme, admira, que deseja caçar, que se identifica ou quer invocar forças inspiradas no espirito deste animal. Este traço passa à ser algo muito importante, o traço que “evoca e invoca” . Neste momento este traço se torna sagrado, o traço que muda profundamente a dinâmica expressiva do ser humano e o separa definitivamente do animal. (Delcourt, 2013)

Desta forma, através da arte o artista rupestre se torna mais consciente, deixando o estado de “presença pura”, ele aprende à se projetar. Assim, ele aprende a lidar melhor com as situações externas e as imagens internas. Uma sorte de diálogo com a imagem criada se estabelece, tornando tudo cada vez mais familiar e insere o ser humano num dinamismo de relação. Isto é apaziguador porque aproxima o ser humano de algo que acontece internamente e externamente. Projetar é uma maneira de lidar com a intuição. Intuição significa : “capacidade para entender, para identificar ou para pressupor coisas que não dependem de um conhecimento empírico, de conceitos racionais ou de uma avaliação mais específica” (https://www.dicio.com.br). A intuição tem à ver com lidar com algo misterioso, com algo que não está presente, mas se pressupõe, se advinha, se sente, que pode prever o futuro. A intuição tem à ver com um conhecimento imediato, instantâneo, direto, claro, sem auxilio do raciocínio.

Desde os tempos mais remotos, o ser humano dança, canta, desenha, cola, pinta, esculpe... No passado, a arte tinha uma função diferente da atual porque ela não era destinada à venda, nem à exposição e nem mesmo à busca do belo. A arte tinha função : espiritual, religando o homem com as forças superiores protetoras; cognitiva instrumentalizando o homem face ao perigos que ameaçam a sobrevivência; social, pois celebrava e reforçava a vida em comunidade e psicológica, religando o homem à conteúdos que acontecem no seu interior.

Nós admiramos um quadro, choramos numa peça de teatro, vibramos numa sonata, nos encantamos num espetáculo de dança, ... a arte é feita para nos tocar, ela mexe, interpela, provoca, emociona, independentemente da nossa historia ou cultura. A arte nos traz de volta à nossa essência humana e transforma nossa existência em algo mais sensível. A arte nos aproxima de nós mesmos e da nossa vida comunitária. Com a arte trazemos à tona a alma humana, passando à conhecê-la melhor, à dialogar e lidar com ela, criando compromissos e vínculos, trazendo uma abertura que nos ajuda à evoluir. A experiência artística finalmente, podemos entender como uma maneira de obter um registro do ato de viver e é algo profundamente humano. Ao traçar artisticamente os conteúdos da vida se promove desenvolvimento, porque a arte nos conduz à olhar as coisas de forma diferente, à dinamizar e à resinificar os problemas criando referências para se conhecer melhor e consolidar a existência; ajuda à tomar consciência das dinâmicas da vida; promove uma visão mais clara das coisas; tem um impacto sobre a própria sobrevivência da comunidade, ou seja, criar abre caminhos. A arte tem um poder de reduzir as defesas verbais pois ela tem uma ação integrada se valendo-se tanto do aparato sensório-motor, como o emocional, cognitivo e o intuitivo.

2. O drama contemporâneo...

Vivemos numa sociedade “pós–contemporânea”, onde gozamos um estilo de vida de muitas facilidades, muito conforto, muitas conquistas tecnológicas, sociais e politicas. Nossa maneira de viver está baseada num modo de ver racional e mecanicista : tudo tem que ser compreendido à luz da razão, bem pensado, projetado e claramente comprovado. Nossos objetivos de vida estão projetados segundo as leis do mercado e as exigências sociais. Nós vivemos buscando nos adequar às grandes exigências de realização econômico-social.

Nossa cultura atual adora tudo o que é “bem estar” : ter uma boa realização profissional, ter uma casa adequada, um corpo saudável e homogeneizado, viajar todo ano, ir ao spa, ter lazeres interessantes, etc. etc., ou seja, está sendo esperado de nós ter uma vida “feliz”. Todavia esse quadro tem um lado obscuro, um preço, com consequências duras como : isolamento social, desemprego, doenças crônicas (hipertensão, câncer, etc. ou burn-out, depressão, etc.) e com grandes danos ecológicos. E ainda, tudo está mudando numa tamanha velocidade que será que verdadeiramente estamos conseguindo nos adaptar? Será que este novo estilo de vida corresponde com as nossas motivações mais intimas? Estamos conseguindo espaços para expressar nossos talentos mais verdadeiros, nossas necessidades afetivas mais sinceras e nossa sensibilidade mais profunda?

Neste mundo acelerado e mecanizado ninguém tolera mais nada que tome tempo, ninguém que nos diga nada que não quero ouvir, nenhum chefe exigente e sincero, um colega que está triste por ter perdido a avó, um vizinho “mala”, não viajar no verão, problema de conexão internet, um filho complicado ou um casamento rotineiro demais. Por pouco as relações estão se desfazendo e a tolerância esta cada vez menor. O tempo de uma mensagem de watsup, tudo acabou. Se colocamos uma lupa na nossa vida de todos os dias, percebemos então que ela está nos dando alguns “golpes” de vez em quando : seja uma doença, um “acidente”, uma insatisfação incompreensível de trabalho, angustias, depressões, enfim, existem muitas maneiras de nos fazer sair da rotina e “estragar” de alguma forma nossos planos.

Esses ditos “golpes” na verdade são formas de expressão de algo essencial no fundo de nosso ser. Algo que tenta aparecer na consciência e ao não consegue ser ouvido, acaba criando problemas porque algo tenta fazer calar. Isto é uma forma de linguagem, uma forma que nossa alma encontra para nos informar que estamos desviando do caminho dela e que precisamos reajustar nossas vidas. O grande desafio humano : saber quem realmente é. A parte mais essencial do nosso ser, lidar com sua alma que não cessa de pedir para ser escutada. A intuição é um caminho, pois ela nos ajuda à reconectar com partes misteriosas e não racionais do nosso ser. A partir do momento que o ser humano adota uma forma racional de existir a intuição perde seu lugar na cultura causando os problemas citados acima. A arteterapia pode ser útil neste momento.

3. Histórico:

A história da arteterapia se confunde com a historia da humanidade. Enumero abaixo de forma absolutamente não exaustiva, alguns momentos chaves que escolhi para dar uma imagem resumida do nascimento desta profissão.

- A Grécia criou um enorme documento psíquico com seu patrimônio cultural, ela diferencia o que é artesanato (técnico, dirigido, voltado ao que é pratico na vida de todo dia) ; e arte (espirito livre, crítica, emoção, denuncia, ...)

- Marquês de Sade (1803) paciente psiquiátrico na Maison de Clareton (FR), chama a atenção ao realizar uma peça teatral conjuntamente com os internos e os profissionais do hospital.

- Hanz Prinzhorn : psiquiatra alemão, filosofo e poeta. Escreve o livro “Expressões da Loucura” em 1922, evidenciando o fenômeno da “gestalung” (traçado) – no sentido da urgência de criar, o que concretiza algo da psique. Chocou muita gente na época e também foi fonte de inspiração para artistas surrealistas como Paul Klee, Marx Ernest e Jean Dubuffet.

- Adrian Hill : pintor inglês, 1938 – é interno no sanatório por tuberculose, pinta e faz os outros doentes pintarem com ele. A cruz vermelha passa à enviar soldados feridos de guerra para sessões de pintura. Ele fala que quando o espirito criador está satisfeito, vai favorecer a cura do coração. Quando o espirito criador está contaminado, ele pode se transformar num inimigo diabólico e governar o espirito.

- Margareth Naumburg : 1941, psicóloga americana, artista plástica, arte educadora, escritora e primeira teórica da AT. Ela vai sistematizar como conhecimento específico e funda Walden School em NY.

- Florence Cane : irmã de M. Naumburg e quem vai diferenciar a arteterapia da arte-educação.

- Alfred Balder : psiquiatra suíço, 1975, ele utiliza a pintura como terapia, ele fala que “o que se exprime pela pertença loucura é o que se tem de mais precioso em nós”. Ele acredita que a doença é uma ocasião para liberar conteúdos – quando se dá a oportunidade de criar.

A fundamentação da arteterapia como profissão vai ter um grande impulso no século XIX sobretudo nos hospitais psiquiátricos. Todavia, muitas vezes a arte era usada principalmente como elemento diagnóstico e como revelador da psique. Adrian Hill foi um marco importante por considerar o espirito criador como um elemento revelador e legitimo canal de desenvolvimento humano.

No Brasil temos dois personagens importantes :

- Osório Cezar : 1923, psiquiatra em SP, Juqueri – vê o fazer artístico como instrumento de cura. Publicou “A arte primitiva dos alienados”. Em 1927 publica “Contribuição para o estudo do simbolismo místico nos alienados”, “Sobre dois casos de estereotipia gráfica com simbolismo sexual”. “A expressão artística nos alienados” é publicada em 1929. Trocou experiências com Freud, fez vários estudos, mas que, infelizmente, muitos se perderam.

- Nise da Silveira : (1905 - 1999) – 1943 – recusa os tratamentos tradicionais (eletrochoques, insulinoterapia, lobotomia) transformando a relação médico/paciente no hospital Pedro II e revoluciona a psiquiatria brasileira oferecendo aos pacientes a possibilidade de pintar para que eles tenham acesso ao inconsciente. Cria o museu do inconsciente em 1952, falando de “formas reveladoras da psique” usa o termo “emoção do lidar”.

- Em 70 foi dado o 1o curso na PUC, nos anos 80 surgem as primeiras escolas de pós-graduação e em 2006 é criada a UBAT, a associação profissional brasileira.

O que falam os criadores das grandes teorias psicológicas :

Freud a obra de arte é sublimação de desejos sexuais e impulsos instintivos que não podem ser satisfeitos. Esses desejos frustrados seriam desviados para a produção de algo aceito, havendo uma comunicação simbólica com função catártica. A transformação do impulso antissocial primitivo em um ato socialmente produtivo causa um pouco da gratificação que a realização do impulso original teria proporcionado. Ele observou que o inconsciente se manifesta através de imagens, transmitindo mais diretamente seus significados porque escapam mais facilmente da censura da mente do que as palavras.

Porém, foi Jung o primeiro a utilizar a expressão artística em consultório. Para ele, a simbolização do inconsciente individual e do coletivo ocorre na arte. Na década de 20, ele recorreu à linguagem expressiva como forma de tratamento. Ele priorizava a expressão artística e a verbal como componentes de cura. Jung afirmou que a criatividade tem uma função psíquica natural e estruturante. Segundo Jung a energia psíquica não muda de objeto enquanto não se transforma. A atividade plástica e a criatividade, para Jung, são funções psíquicas inatas que contribuem com a evolução da personalidade e com a estruturação do pensamento.

4. O que é a arteterapia:

A arteterapia é o uso da arte como base de um processo terapêutico. Ela visa estimular o crescimento interior, abrir novos horizontes e ampliar a consciência do indivíduo sobre si e sobre sua existência. Utiliza a expressão simbólica, de forma espontânea, sem preocupar-se com a estética, através de modalidades expressivas como: pintura; modelagem; colagem; desenho; tecelagem; expressão corporal; sons; músicas; criação de personagens, entre outras.

A arteterapia possui a finalidade de propiciar mudanças psíquicas, assim como a expansão da consciência, a reconciliação de conflitos emocionais, o autoconhecimento, o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento da personalidade. O que difere a arteterapia da arte-educação e da ergoterapia é a intensão e a formação.

A mudança se faz num processo de aprendizado, de simbolização, de tomar distancia dos afetos e de tomada de consciência progressiva através da relação com o objeto criado. Ela pode beneficiar à todos : crianças, adolescentes, adultos idosos, não é necessário nenhum conhecimento artístico somente vontade de transformar algo dentro de si. Finalmente, a arte é um caminho protegido pelo simples prazer de criar, é um mergulho confiante porque uma vez a obra feita, se estabelece uma distancia protetora das emoções difíceis. A experiência emocional que ela nos proporciona é independente das palavras. A historia nos mostra que ela atravessa o tempo sempre expondo os grandes dramas da humanidade, suas emoções, sua luta civilizatória. Ela cria um vinculo entre a humanidade e seu processo evolutivo, ou seja a jornada da alma humana.

Bibliografia:

Delcourt, T. (2013). Créer pour vivre, vivre pour créer. (L. d'Homme, Ed.) Lausanne, CH.

Envers, A. (2015). Le grand livre de l'Art Thérapie. 2°. Paris: Eyrolles.

Lipovetsky, G. (2015). De la Légèreté, vers une civilisation du léger. Paris: Bernard Grasset.

Maciel, C., & Carneiro, C. (2012). Diálogos criativos entre a arteterapia e a psicologia junguiana. (Wak, Ed.) BR.


"O peso em mim diminui à medida em que o pote de pintura diminui"

Publié le 4 mai 2018 à 4:50 Comments commentaires (0)

 Nesta semana, precisamente no dia 1o de maio 2018 de o jornal Le Temps publicou um artigo muito ilustrativo sobre a arteterapia. Faço questão de traduzi-lo acresentando alguns comentarios :

A autora do texto, Julie Eigenmann, comenta que atualmente a Suíça Francesa conta com uns 160 arteterapeutas atuando em diversos frontes. Entrevistando a arteterapeuta Marine Métraux, presidente da APSAT (assotiation professionelle suisse des art-thérapeutes), podemos ter uma ideia concreta do quotidiano do setting arteterapêutico.

Marine Métraux ceramista e arteterapeuta, conta como acontece as suas seções : uma conversa inicial e em seguida uma direção criativa é tomada. O material e a técnica utilizada vai depender da necessidade expressiva do paciente. (É interessante ver que neste momento ela fala de “momento mágico”, quem já vivenciou um dia um atelier arteterapêutico sabe do que estamos falando. Tem este momento onde “algo acontece”, em psicologia analítica Junguiana falamos de momento “numinoso”, quando a experiência do encontro da pessoa com algo mais profundo e significativo acontece.)

O arteterapeuta, comenta Marine Métraux, tem um papel de observador e no final estará presente para comentar este momento único. Não ha uma interpretação, mas sim, um espaço de comentários sobre o que foi feito : como isso pode estar mexendo e o que pode estar inspirando nessa hora. O importante é o processo criativo, não o resultado. A obra não vai ser julgada nem exposta. (É o preceito básico da arteterapia, o estético não é um valor, e sim o significado...) Seus pacientes são pessoas com burn-out, depressão, Alzheimer, etc.

Ela dá o exemplo de uma paciente de 22 anos que sofria de rejeição e isolamento social, sobretudo, ela guardava este sofrimento dentro de si. A paciente frequenta ateliers de arteterapia desde os 16 anos, dizendo que agora se sente muito melhor, se exprime melhor e ainda descobriu um talento artístico. Fala das emoções sentidas ao ver o pote de pintura esvaziar e ao mesmo tempo que alivia o peso de seus problemas. Agora ela consegue criar imagens e nelas colocar palavras e significados. Ela se sente livre, valorizada e apaziguada e assim ela vai se conectando com as suas próprias verdades.

Julie Eigenmann conta em seguida, que a arteterapia (que se serve das artes plásticas em geral como : pintura, desenho etc.) é uma das vertentes deste tipo de terapia. Existe também outras especializações : a dançaterapia, a dramaterapia, a musicoterapia e arteterapia intermedial (que combina muitas dessas terapias ao mesmo tempo).

Como exemplo de dramaterapia, a dramaterapeuta e atriz Anne-Cécile Moser descreve uma seção de dramaterapia: primeiramente o paciente conta o que o leva na seção, podendo utilizar algumas miniaturas para ilustrar como um Playmobil. Ela propõe então que o paciente crie um personagem em ressonância com seu problema. O objetivo é expressar as emoções para integra-las melhor, se afirmando e desenvolvendo mais confiança em si. As seções acontecem principalmente em grupo. Anne-Cécile Moser anima com sucesso grupos de adolescentes com problemas de comportamento. Ela comenta que não é médica, não faz diagnósticos e todavia não cura, mas pode ajudar os jovens à se realizarem através do jogo que pode ser produzido à partir das historias contadas e que vão se tornando cada vez mais coerentes.

Este artigo pode ser consultado no : https://www.letemps.ch/societe/poids-moi-diminue-fur-mesure-pot-peinture-se-vide?utm_source=facebook&utm_medium=share&utm_campaign=article


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